Toda criança briga com os pais por ter que fazer tudo o que mandam. Ir para tal lugar, fazer tal coisa, vestir uma roupa específica... Ela logo põe na cabeça o desejo pela independência, por poder fazer o que quiser, quando e como preferir. Ela não quer depender mais da família, seja financeiramente ou mesmo para esperar para sair.
Esse desejo se mostra cada vez mais comum. Vivemos em uma sociedade cada vez mais efêmera, que se alimenta com uma informação divulgada de maneira cada vez mais rápida. As crianças não querem mais esperar para serem independentes; elas basicamente nascem com esse desejo.
Onde isso se encaixa na música? Ora, digamos que a criança seja o músico em ascensão, que sonha em fazer shows e se mostrar para o mundo da maneira que consegue. Os pais são as gravadoras, os grandes ditadores dos padrões musicais locais e internacionais. Eles são quem alimentam essas “crianças”, as financiam e as entregam para o mundo, mas sempre na aba delas.
Ok, chega de metáforas! O músico independente tem a característica de querer as coisas na hora que desejam, sem esperar a boa vontade das gravadoras. Não é um ser ansioso, mas sim autônomo. Outra característica dessa espécie é o fato de que eles não são necessariamente rebeldes por quererem ser diferentes. Eles têm as justificativas deles. É como uma criança que não quer colocar a roupa escolhida pelos pais para ir a uma festa. “Não quero! Quero ir do meu jeito”, dizem.
A indústria de moda dita os padrões de roupa da mesma forma que a fonográfica dita os padrões musicais. No Brasil atual, as gravadoras e os grandes selos focam no que melhor lhes proporcionaria retorno financeiro: funk, pop e sertanejo, música eletrônica e às vezes um pagodinho. Se um artista quiser vender seu EP de punk rock ou mesmo de baião, a gravadora vai fazer um olhar estranho, da mesma forma que os pais dos amigos da criança que se “revoltou” e colocou a roupa que queria.
A partir desse argumento, podemos entender a música independente não apenas como uma atitude transgressora e como um reflexo da apressada sociedade atual, mas também como um processo de defesa estética. É a galera que não quer se render aos estilos mainstream, que quer expor sua arte do jeito que quer que acha que ela deveria ser vista. Isso justifica o porquê de a maioria dos artistas independentes se afirmar musicalmente através de estilos mais underground. É querer usar a roupa que quiser
Onde estão? Do que se alimentam?
Estão em todo lugar, mas se alimentam principalmente do indomável universo digital. Aparentemente, as gravadoras não encontraram até hoje uma maneira eficaz de dominar a internet, a verdadeira definição de “casa da Mãe Joana”. E aí entram os independentes, com suas gravações próprias. É claro que existem gravações superiores em termos de qualidade, e estratégias que proporcionam a um artista independente melhor divulgação online, mas isso é algo que vai de cada um. O músico autônomo viu na internet o mesmo que uma criança em uma loja de doces: uma pletora de oportunidades. Plataformas musicais (umas mais burocráticas, outras menos) onde ele apenas cria um perfil e posta seu trabalho. Redes sociais em que sua música pode ser levada a milhões de pessoas com apenas alguns cliques. Blogs, Youtube... As oportunidades são incontáveis.
Dizem por aí que as gravadoras perderam o monopólio da indústria da música. Essa é uma afirmação um tanto perigosa. Seria como dizer que todas as crianças do mundo estão emancipadas, e não é bem assim. Apesar da maior liberdade e do maior acesso dos músicos independentes ao mundo musical de fato, na prática as coisas se mostram diferentes. Ainda existem vários muros a derrubar. As gravadoras ainda ditam ao público o que deve ser ouvido ou não, o que dá ao mainstream a força total do mercado.
Não estamos falando de uma revolução à lá as que a História nos mostrou. Estamos falando sobre dar oportunidades a quem não tem. Dar voz a quem quer falar. Mostrar que a internet tem seus problemas, mas que acerta em cheio no quesito “democracia”. Pela primeira vez na história recente da música, temos um espaço em que todos podem se mostrar, mostrar o seu ponto de vista, mostrar sua estética. E isso tudo sem a ajuda de ninguém, sem ninguém se meter onde não necessariamente é chamado.
É o que a música brazuca precisa
Brasil. O quinto maior território do mundo. Vinte e sete estados e um distrito federal. Cerca de 207 milhões de habitantes... E tem gente que acha que dá pra generalizar? Não, não mesmo. Quanto maior um país, mais difícil é de definir sua cultura. Ou você acha que as gravadoras ouvem todo mundo disposto a se lançar musicalmente e fazem uma seleção para escolher os melhores?
O Brasil conquistou a independência de Portugal em 7 de setembro de 1822, mas a música brasileira ainda não conseguiu autonomia das grandes gravadoras. Se formos considerar a pluralidade cultural do nosso território, podemos facilmente constatar que as vozes do Brasil não cantam apenas sobre arranjos de funk, pagode e axé. Esse erro se repete desde que o Rio de Janeiro mostrou para o mundo a bossa nova. Só se falava disso, enquanto o Nordeste deixava a sua marca concretizando o baião e o forró. O Brasil tem muita gente e, logo, muita música. Música essa que se veste em uma grande diversidade de estilos e discursos.
Falar da música brasileira em pleno século XXI sem levar em conta o que muitos estão fazendo, em suas próprias casas e em pequenos estúdios, é reduzir nossa cultura a um grupo restrito. Estamos aqui justamente para dar visibilidade à parte underground da cultura musical brasileira. Queremos fazer com que o público saia da bolha e veja que não se trata apenas do que é veiculado com maior frequência. E, quem sabe, tirar de “debaixo da terra” essa cena ofuscada, colocando-a aos olhos de todos e fazendo-a ter a atenção que merece.

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